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terça-feira, 3 de maio de 2016

O Estado de Bem Estar e a Política Social nos marcos históricos do capitalismo





Por Priscila Morais


OBS 1: As analises e conclusões contidas nesse breve texto são fundamentadas em estudos e leituras referenciadas no mesmo, considerando o posicionamento teórico dos autores em questão.
OBS 2:  Esse pequeno texto não se enquadra na categoria de texto acadêmico. Se constitui enquanto exercício de estudos.







            O Estado enquanto superestrutura a serviço da estrutura econômica gerida pela classe burguesa, no interior da sociabilidade capitalista, surge segundo Marx (2010), em seus escritos no “Glosas Críticas” com uma dependência ontológica a sociedade civil, que em Marx, se traduz como sociedade burguesa; em outras palavras o Estado surge com a função primeira de atender aos interesses da classe hegemônica, em diferentes períodos históricos e sociais.
            Na sociedade regida pelo Capital, o Estado mantém a sua funcionalidade, de acordo com o estágio de desenvolvimento do capitalismo. No processo de transição da pequena indústria ou indústria familiar para a grande indústria que se caracteriza, nas palavras de Netto (2011), como “a primeira onda industrializante”, qual seja, a revolução industrial, processo de consolidação do capitalismo como modo de produção, nos marcos do ideário liberal, no conjunto dos processos produtivos de acumulação que se põe historicamente como capitalismo concorrencial.
            O Estado liberal, segundo Braz e Netto (2011), intervinha na economia de forma externa, adotando a lógica do liberal Adam Smith, a qual o mercado deveria ser livre para se auto regular. Acerca dessa intervenção indireta do Estado, há controvérsias entre perspectivas teóricas defendidas por alguns autores.
No que tange a intervenção do Estado liberal no social, visto que, é nesse contexto de industrialização e hegemonia do capitalismo que, segundo Pimentel (2012), gestam-se as bases da questão social, o Estado segundo Netto (2011) intervém de forma altamente coercitiva e repressiva nas mazelas gestadas pela acumulação, por meio de leis trabalhistas que em sua maioria, tendiam a privilegiar ainda mais os industriais que os trabalhadores, através da repressão organizada pelo seu aparato policial, militar e outras forças a serviço da ordem social, direcionadas violentamente contra qualquer tipo de organização do proletariado emergente do processo de industrialização.
            Situadas essas questões teóricas introdutórias, a respeito do Estado e do mesmo em sua fase liberal concorrencial do capital, adentraremos a uma série de breves apontamentos acerca do Estado Social ou Estado de Bem Estar Social, nos marcos do capitalismo em sua fase monopolista ou capitalismo maduro nos termos de Mandel (...).
            O Estado a serviço dos monopólios passa a adotar uma série de funções, o que caracteriza algumas particularidades que o diferencia do Estado liberal. O Estado de  Bem Estar adota medidas diretas ou internas de intervenção na área econômica e social. É importante frisar que essa intervenção social do Estado nesse contexto histórico, nas expressões da questão social, se dá em detrimento dos interesses econômicos e políticos, em função do restabelecimento das taxas de lucro e retomada do processo de acumulação do capitalismo, em determinado contexto de crise, que se estendeu de 1929, foi suspensa pela segunda guerra e retornou ao término da mesma e como forma de se precaver politicamente, por conta da disseminação de idéias socialistas que rondavam a Europa. 
            No período de surgimento do Estado de Bem Estar como aparato ideológico e político para a sua legitimação, por meio do jogo democrático, são adotadas as medidas econômicas e sociais conhecidas como Keneysianismo, ou nas palavras de Siqueira (2013), “liberalismo democrático.” Essas medidas propunham, segundo Netto (2011), a intervenção organizada, sistematizada e estratégica do Estado nas expressões da questão social. Para o idealizador do conjunto de medidas intervencionistas via Estado – Keynes - os problemas sociais vivenciados nesse contexto, se caracterizavam como um problema de mercado, qual seja um déficit na oferta e na demanda de serviços, gestadas pelo subconsumo. Nessa lógica, o Estado deveria atuar no sentido de motivar o consumo das massas, através da concessão de salários indiretos, políticas de pleno emprego, proteção social e previdência, até mesmo para o conjunto dos trabalhadores ativos, no sentido de reabilitá-los enquanto consumidores. Dessa forma, o Estado concretiza a política social com vistas a favorecer a política econômica, a qual recebia altos investimentos como, por exemplo, isenção de tributos fiscais para fortalecer suas bases de produção, acumulação e concentração.
            A respeito do surgimento das políticas sócias, Netto (2011), coloca que só se ouve falar em política social pública a partir do capitalismo monopolista. Ainda na esteira do autor, no que tangem a discussão do binômio concessão e conquista na política social, Netto diz que não há dúvidas que a política social surge do processo de organização e luta do proletariado, logo, para o autor, a política social se constitui enquanto conquista, no entanto o mesmo também entende a política social como concessão do Estado, gerada pelas pressões exercidas pelos trabalhadores. Autores como Berhing, Montaño, Iamamaoto também apreendem a política social como concessão e conquista. Outros autores como Meszáros e Lessa apreendem a política social pela ótica da concessão. Tais autores colocam que as demandas sociais incorporadas pelo Estado Burguês no contexto monopolista, atuam no sentido de controlar e manter a reprodução da classe trabalhadora – leia-se: desmobilização dos trabalhadores -. Nesse contexto toda intervenção do Estado de Bem Estar, no social,  é entendida por Lessa (2013), como um estimulo ao consumo em detrimento da produção e vice e versa e ambos em detrimento da cumulação.
            Meszáros (2002), em seus escritos no livro ‘Para além do Capital’, coloca que a concessão das políticas sociais a classe trabalhadora não traz prejuízo algum ao capital, pelo contrário, essas medidas ainda que paliativas, garantem como complemento ao salário real do trabalhador a sua subsistência e conseqüentemente o controle e a reprodução de sua força de trabalho. Logo, as políticas sociais, enquanto instrumento criado pelo Estado a favor do Capital, se constituem enquanto benefício maior a este que a classe trabalhadora.
            Netto (2011), em seu texto ‘As cinco notas a propósito da questão social’, sinaliza a importância da apreensão dos limites da política social na sociedade capitalista. Nesses termos, o autor coloca que esse mecanismo de intervenção do Estado na questão social não tem a potência de findar com os males sociais, visto que, tais males se põem como conseqüência inalienável a esse modo de produção. Marx (2010), no citado ‘Glosas Críticas’, já advertia sobre a impossibilidade do Estado atinar e intervir na raiz dos males sociais, nas palavras de Netto (2011) “isso implicaria por em xeque a existência da própria base produtiva que funda o MPC”. Segundo este, mesmo tendo clara as possibilidades e limites da política social, estas são necessárias aos trabalhadores, no interior dessa sociedade, fundada pela contradição da produção social da riqueza e de sua apropriação privada, que ao passo em que gera as condições favoráveis para produzi-la em um movimento contraditório produz e reproduz a barbárie social.
            Diante do que foi posto, é possível apreender que mesmo com  a transição de uma fase capitalista para a outra ou de uma versão de Estado para outra versão, as suas funções e interesses basilares continuam os mesmos. Ao Estado liberal, social ou na contemporaneidade, o Estado neoliberal, corresponde à função de salvaguardar os interesses da burguesia e ao capital continuar seu ciclo de produção, concentração e centralização, em face das mazelas sociais decorrentes desse processo em diferentes períodos históricos.


 Referências



BRAZ, Marcelo; NETTO, José Paulo. Economia Política: Uma introdução crítica. 8ª Ed. São Paulo: Cortez, 2012.


LESSA, Sérgio. Capital e Estado de Bem Estar: o caráter de classes das políticas públicas. São Paulo: Instituto Lukács, 2013. 




MARX, Karl. Glosas Criticas Marginais ao Artigo “O rei da Prússia e a reforma social” de um prussiano. Trad.: Ivo Tonet. São Paulo: Expressão popular, 2010.





MÉSZÁROA. Estván. Para Além do Capital: Rumo a uma teoria da transição. Tr. Paulo Cesar Castanheira/Sérgio Lessa. São Paulo: Boitempo. 2002.


 NETTO, José Paulo. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. 8ª Ed. São Paulo: Cortez, 2011.



PIMENTEL, Edlene. Uma “Nova Questão Social”? Raízes materiais e humano-sociais do pauperismo de ontem e de hoje. 2ª Ed. São Paulo: Instituto Luckács, 2012.



SIQUEIRA, Luana. Pobreza e Serviço Social: diferentes concepções e compromissos políticos. 1ª Ed. São Paulo: Cortez, 2013.


domingo, 27 de dezembro de 2015

O significado das Políticas Sociais





Por Priscila Morais

OBS: Esse pequeno texto não se enquadra na categoria de texto acadêmico. Se constitui enquanto exercício de estudos.



            A Política Social surge, segundo Iamamoto e Carvalho (1996), como consequência dos direitos sociais e da cidadania, no contexto do capitalismo monopolista, entre os séculos XIX e XX. Ainda acerca do surgimento das políticas sociais, Berhing e Boschetti (2011), colocam que as condições que favoreceram sua emergência se caracterizam pelos seguintes aspectos: a organização e mobilização da classe trabalhadora, a correlação de forças entre as classes no âmbito do Estado burguês e o desenvolvimento das forças produtivas que, por sua vez, exponenciam a barbárie social.

            A política social ganha espaço nos marcos do capitalismo monopolista, pelas mãos do Estado Social, ou Estado de Bem Estar, que se reconfigura para melhor atender as exigências do Capital e passa a intervir diretamente e internamente nas relações econômicas e sociais, fazendo uso, não apenas da repressão, mas agora, também do consenso. Nesses termos, é interessante frisar que a intervenção do Estado nas demandas sociais, se constitui enquanto condição para intervir no econômico; em outras palavras: o social posto nesse contexto está subordinado à política econômica.

            Dado o agravamento da questão social, gestada pelo movimento de produção alargada do capital, em sua fase madura, como formula Mandel – (capitalismo monopolista/capitalismo maduro, pois no entendimento do autor, é nesse momento que o capitalismo atinge o seu mais alto grau de desenvolvimento). – O Estado Social passa a atender em alguns casos e em outros a se antecipar estrategicamente as demandas dos trabalhadores, segundo Netto (2011), com o objetivo primeiro de garantir a manutenção da ordem, o controle e a reprodução da classe trabalhadora, a serviço do Capital. Netto (2011), Berhing e Boschetti (2011), Montaño e Duriguetto (2011) e Iamamoto de Carvalho (1996), são unânimes ao caracterizar a política social através do binômio concessão e conquista, nessa perspectiva teórica, Netto (2011), coloca que não há dúvidas de que a política social surge da capacidade de organização e mobilização do proletariado e do conjunto dos trabalhadores. As concessões do Estado, nesse sentido, acontecem como respostas às pressões exercidas pelos trabalhadores. Ainda no entendimento do autor, o Estado não cria as políticas sociais, este as concretiza. Os autores citados compreendem o caráter de dominação contido nas políticas sociais, mas naturalmente, assinalam que não podemos deixar de defender os ganhos dos trabalhadores com a incidência da política social em suas vidas cotidianas, considerando-as necessárias no contexto da sociabilidade vigente. 

            Autores como Meszáros (2002) e Lessa (2013), entendem a política social como um mecanismo de concessão do Estado para se alto legitimar e legitimar a ideologia da classe dominante, através do seu aparato político, democrático e institucional a favor do Capital. Meszáros (2002), põe que tais concessões do Estado Social sob a forma de políticas sociais e direitos sociais são, na verdade, mais favoráveis aos interesses capitalistas que aos trabalhadores, em outras palavras, os ganhos para a classe vulnerabilizada, no que tange a garantia ou o complemento a sua subsistência não estremecem se quer a base de produção e acumulação do Capital, ao contrário, a política social, enquanto controle social, favorece os ganhos do MPC, visto que, garante minimamente as condições de vida dos trabalhadores que como consequência inevitável  de dominação e exploração, continua a serviço da reprodução da ordem socioeconômica vigente. No entanto, o autor apreende a importância dos ganhos relativos da política social para os trabalhadores nos limites dessa sociedade, mesmo que tais direitos sejam anulados sempre que não representem os interesses do capital, em determinadas conjunturas históricas, a exemplo do atual período neoliberal.

            Braz e Netto (2012), apontam os ganhos dos capitalistas com a intervenção do Estado via políticas sociais na realidade cotidiana dos trabalhadores. Os autores colocam que tais medidas de intervenção desonera o capitalista de arcar com o ônus de sua responsabilidade com a reprodução da força de trabalho. Iamamoto e Cravalho (1996), colocam que o Estado, ao intervir via serviços sociais, tais como: salários indiretos, subsídios para a obtenção de moradia própria, transporte público e financiamentos, desobriga o capitalista de aumentar o valor do salário real do trabalhador, o que se constitui em ganhos para o mesmo, tendo em vista que são os próprios beneficiários dos serviços que os financiam. Embora o trabalhador acesse a esses serviços sociais e tais serviços sejam necessários a eles, nessa sociedade, isso não se caracteriza como ganhos substanciais que viabilizem uma igualdade real, mas se põem como micromudanças que não anulam sua condição de explorado.

            Tendo clara a razão de existir das políticas sociais, é necessário e possível apreender os seus limites postos nos marcos dessa sociedade. Sendo a política social um mecanismo de intervenção do Estado para atuar no enfrentamento as expressões da questão social, tendo em vista que, o Estado é superestrutura demandado pela estrutura econômica para salvaguardar seus interesses, entendemos que a política social surge e se desenvolve convergindo nesse mesmo sentido.

            Apreender a política social sob essa perspectiva teórica, não nos leva ao entendimento de que este mecanismo é desnecessário ou tão somente inconveniente a luta da classe trabalhadora nos limites do capitalismo desenvolvido. É preciso ter a percepção de que não será por meio das conquistas ou avanços da política social, nos marcos dessa sociedade que chegaremos à emancipação humana e ao fim das contradições inerentes a esse sistema econômico. A política social enquanto cria do capitalismo, bem como a democracia, cidadania e os direitos burgueses são organicamente funcionais a produção e reprodução das relações sociais  vigentes, logo, se fazem necessárias enquanto meio de sustentação da dinâmica do Capital, no gerenciamento dos males sociais e a favor das condições mínimas de existência do trabalhador, no sentido de garantir a contradição que, segundo Trindade (2011), funda o MPC, qual seja, a produção social da riqueza e sua apropriação privada.







REFERÊNCIAS



IAMAMOTO, Marilda Vilela; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. São Paulo, Cortez, 1983.



BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: Fundamentos e História. 9ª Ed. São Paulo: Cortez, 2011.



NETTO, José Paulo. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. 8ª Ed. São Paulo: Cortez, 2011.



MONTAÑO, Carlos; DURIGUETTO, Maria Lúcia. Estado, Classe e Movimento Social . 3ª Ed. São Paulo: Cortez, 2011.

BRAZ, Marcelo; NETTO, José Paulo. Economia Política: Uma introdução crítica. 8ª Ed. São Paulo: Cortez, 2012.



LESSA, Sérgio. Capital e Estado de Bem Estar: o caráter de classes das políticas públicas. São Paulo: Instituto Lukács, 2013. 



MÉSZÁROA. Estván. Para Além do Capital: Rumo a uma teoria da transição. Tr. Paulo Cesar Castanheira/Sérgio Lessa. São Paulo: Boitempo. 2002.



TRINDADE. José Damião de Lima. História Social dos Direitos Humanos. 3ª Ed. São Paulo: Petrópolis, 2011.