segunda-feira, 7 de maio de 2012

A dinâmica da autocracia burguesa e o processo de renovação do Serviço Social no Brasil.


O serviço social em sua emergência dar-se através de vínculos fortemente estabelecidos com a igreja católica que por sua vez atribuiu ao serviço social um caráter caritativo, de ajuda ao próximo, fundamentado no tomismo, como um norte para a prática social da época.
Nesse período o assistente social era visto como um bem feitor, aquele que é provedor do bem comum. Essa identidade atribuída ao SSO pela instituição católica perdurou por muitos anos junto à profissão, e ainda existem resquícios dessa identidade em dias atuais.
Em meados da década de 60, o país passou por um processo de mudanças sociais políticas e econômicas. Instaura-se no Brasil o período de ditadura militar que teve início com o golpe de 30, a tomada de poder pelos militares que passaram a liderar o país com mão de ferro. Esse contexto de grandes mudanças no país, também marca o início de um processo gradativo de mudanças no âmbito do serviço social. Não dá pra pensar a renovação do serviço social sem fazer relação com a autocracia burguesa, porém é necessário ficar claro que a renovação que acontece na profissão não se resume ao contexto político da época, mas estabelece relação entre ambos em um mesmo momento histórico.
A modernização conservadora e as modificações profundas na sociedade, que se efetivaram durante o ciclo autocrático burguês sob o comando do grande capital, atingiram o serviço social diretamente em dois níveis, na sua prática e na sua formação profissional.
O processo de autocracia burguesa vai alterar a questão do trabalho. No caso do serviço social o que vai referenciar a profissão é o mercado de trabalho e não mais a ligação com a igreja. Houve uma transformação também nas instituições que empregavam os assistentes sociais sob uma reformulação funcional e organizacional. O próprio Estado é quem impõe as determinações para que o mercado de trabalho se apresente dessa forma aos assistentes sociais.
O desenvolvimento gestado pelos investimentos no capital, conseqüentemente agravaram a questão social, por conta da intensificação das relações capital/trabalho. Dessa forma o Estado precisaria restabelecer a ordem na sociedade e conciliar ao seu interesse o avanço econômico e a ordem social.
Diante desse contexto histórico, a autocracia burguesa viu-se na necessidade de controlar as expressões da questão social que se intensificaram no país diante das alterações gestadas na área econômica, cultural, política e social. Dessa forma o serviço social é institucionalizado como profissão no período ditatorial, os assistentes sociais nessa época seriam profissionais responsáveis pelo controle social e planejamento de políticas públicas. Este assume postura de racionalidade burocrático-administrativa para atender aos interesses da autocracia burguesa.
O profissional deveria ser “moderno” no sentido de se adequar ao modo vigente da sociedade, com desempenho onde traços “tradicionais” são deslocados e substituídos por procedimentos racionais-funcionais.
Produzir esse profissional “moderno” exigiu do Estado mudanças, referentes ao mecanismo usado na formação dos assistentes sociais. Essa formação ficou a encargo da política educacional da ditadura, a partir disso o SSO ingressa no circuito da universidade, estabelecendo contato com disciplinas vinculadas às ciências sociais tornando evidentes aspectos decorrentes da mesma. Essa aproximação do SSO com a academia evidência a ruptura com a igreja católica e suas formas caritativas de atuação – processo de laicização do SSO – que foi um dos elementos caracterizadores da renovação do SSO sob a autocracia burguesa.
A inserção do SSO no âmbito da universidade, em moldes ditatoriais ainda assim possibilitou a formação de espaços de reflexão gestando uma massa crítica. A autocracia burguesa conseguiu o seu objetivo de produzir profissionais aptos para atender suas demandas modernizadoras, mas o meio acadêmico também formou profissionais cujo seguimento não era favorável aos seus. O processo de renovação do SSO acontece em dois momentos. Em primeiro momento, foi uma reatualização do conservadorismo sem romper com o modelo estrutural funcionalista. Em segundo momento as mudanças gestadas na época trouxeram para o serviço social uma alto-crítica que se caracteriza pelo resgate institucional na intervenção profissional a partir de uma nova concepção de Estado.
O processo de ruptura do SSO é muito complexo, em meio a rompimentos que se entrecruzam e põe-se a continuidades. Os vetores que conduziram a crise do SSO modernizador, remetem ao amadurecimento profissional, o rompimento com as bases do catolicismo, o envolvimento com movimentos sociais e por fim a relação estreita com as ciências sociais, remetendo o SSO a dimensões críticas e nacional-populares.
 Priscila Morais



10 comentários:

  1. ótimo,ajudou muito nas minhas pesquisas, obrigada!

    ResponderExcluir
  2. Também gostei muito, Priscila! Estudei para a apresentação de um seminário de acordo com essa leitura.

    ResponderExcluir
  3. ótimo texto, resumido, porém completo, grata.

    ResponderExcluir
  4. Obrigada! Feliz por esse blog ajudar de alguma forma! :*

    ResponderExcluir
  5. texto muito bom e esclarecedor....

    ResponderExcluir
  6. jose alexandre da silva neto13 de março de 2014 15:14

    Espetacular apresentacao de Priscila Morais,fiquei bastante antenado com o resumo que voce apresentou. A autocracia burguesa era quem dava realmente as cartas durante esse periodo, principalmente na perda da forca da ditadura.

    ResponderExcluir
  7. Obrigada! Que bom que gostou José Alexandre!

    ResponderExcluir
  8. Respostas
    1. Obrigada! Que bom que gostou, Paolla!! Volte sempre! Abraço.

      Excluir